Li e senti muita coisa. Aprendi muito. Agora é hora da prática. Guardo aqui minhas histórias e descobertas desse mundo que antes fora tão nublado e agora acorda diferente na minha cama, todos os dias.
seca: s.f. 1. O estado ou qualidade daquilo que é seco, sem água, sem líquido. 2. Um evento que ocorre no Nordeste, caracterizado por falta de chuvas, retirantes e mandacarus comidos. 3. Quando você sente que pode descer pelo elevador e dar para o porteiro como uma puta nunca deu, enquanto todos os habitantes do prédio dormem abraçados com suas esposas, gemer e gozar loucamente, depois vestir a roupa e dormir tranqüilamente.
seduzido às 01:55 ou
24.1.05
a cidade e o céu
Porto do Sal é uma cidade inteiramente pintada de branco, as calçadas, as paredes, por toda parte os postes são brancos e imaculados. À noite, as mulheres vestem longos vestidos trabalhados com pérolas e cristais pequenos e andam pelas calçadas limpas olhando vitrines de vidro iluminadas por algumas velas muito brancas e com uma chama muito brilhante que parece um tipo de cachoeira nos dentes muito limpos que ficam rindo, rindo. Os homens andam de sapatos de verniz limpíssimos e enquanto flores parecidas com damas-da-noite caem no chão devagar. Crianças brincam no parque enquanto as mães tomam chá em xícaras de porcelana.
Toda cidade parece um tipo de hóstia durante o meio dia. Mas nenhum habitante olha na direção do céu. Durante o dia todo, nuvens tenebrosas negras e azuis petróleo varrem todo o céu, escondem as estrelas e a lua, ventos vermelhos riscam monstruosos as massas pesadas de chumbo e desenham pesadelos secretos, de vez em quando um trovão ilumina as cenas de estupro, assassinatos e suicídio. Um vento amargo que vem do sul doura tudo, queima e fuzila quando as nuvens laranjas do pôr-do-sol querem iluminar a cidade: branca, ela permanece e de longe se ouve dois sons: crianças rindo no parque e um choro sufocado.
seduzido às 14:57 ou
11.1.05
chuva
Rápido, é como se eu precisasse de um segredo vermelho e laranja para que o dia inteiro pudesse correr, sente que ele está parado?, são as nuvens cinzas, a chuva secando devagar no chão, decidi vestir um sapato preto porque era como se eu precisasse manter meus pés protegidos do mundo e o negro me protege como a noite. Rápido, me dá a mão porque é como se eu viajasse e a grama indo tão longe na janela fosse uma continuação de um sonho de fecundidade que não pode crescer, sinto que amo profundamente e é mais profundo que eu posso medir, é profundo como um segredo. Enquanto eu dormia, choveu e eu não percebi que à partir dali eu não poderia continuar, havia um mar negro e sem espuma, um barco calado, nenhuma pegada na areia fria e gelada do ano novo, quero como a urgência de rezar alguma coisa que desperte, que desperte como um rio que aparece, eu precisaria de um rio inteiro para matar a minha sede porque é como se desde o início dos tempos eu precisasse de água, numa sede eterna de: absoluto momento quando se sorri depois do beijo. Vermelho, laranja e azul, é como (fecho os olhos), é como entregar-se para esquecer completamente.
Rápido, como um trovão, a chuva vem devagar e eu não tenho astrolábios, não tenho pêndulos, barcos e cordas, rápido porque me jogo ao mar em segredo num absoluto segredo de entardecer. E respiro. E respiro. Mandaram construir um trilho de trem entre nossas casas e não posso ver além dela porque o trem nunca termina, nunca termina. Às vezes, como numa memória, acho que te vejo acenando mas a vida grita, urgente: digite, seu trabalho, lembra? E digito. Porque não me pergunto muito, aprendi que às vezes, quando calo, é porque é uma ansiedade cinza; colocarei os pés na rua novamente, devagar, e meu mundo se encherá das coisas que eu encontrar: a grama verde, a terra vermelha, o céu de zinco frágil e os prédios duros sendo, sendo, num esforço contra o mundo as coisas são. E eu vou desviar da grama, da terra vermelha, do olhar profundo dos prédios descobertos e num sussurro que parece uma prece pedir: Deus?, dai-me. Porque preciso. E porque não sei mais viver sem. Rápido, como um segredo azul e laranja, me inunda de licor de laranja em taças de cobalto, rápido porque não sei mais rezar e minha avó anda com um terço pela casa, é como uma saudade crônica de estender a mão para dentro do lago das carpas gordas, laranjas!, dormir no meio do caminho esperando acordar tão longe, numa rodovia de árvores enganadoras, dormir debaixo do salgueiro, rápido porque o dia continua e eu não posso mais pedir.
seduzido às 13:21 ou
22.12.04
vangelo
às vezes sinto vontade de escrever um evangelho
hoje, de sair de todas as comunidades que entrei no orkut
de comer açaí, mas está muito gelado, de comer fondue
tenho vontade de descobrir meus desejos
seduzido às 16:11 ou
17.12.04
ela recolhia pérolas na areia quente da praia, a mão esquerda já estava um pouco cheia delas, um pouco de areia e sal brilhante e redondo, os pés num calor confortável de ser quente demais, um vento batia devagar, o mar, o mar e ondas, o vestido azul claro e flores vermelhas de Verônica voava um pouco com ela, um chapéu com uma fita branca voa, uns risos dela sozinha se rindo, acho que vi ela refletida nas pérolas brancas das mãos, acho que vi ela refletida nas pérolas brancas das sandálias, um riso branco de sol claro, águas e vento.
seduzido às 18:49 ou
15.12.04
carta para gustavo eólico
fujo de você em seu aniversário, desesperadamente ignoro as flores pequenas e brancas, ignoro o dia quente e o prazer de estar suado e tomar meu banho num chuveiro e sair, cabelo molhado e vento, fujo das fotos, das luzes, fujo do sexo que grita me amedrontando, fujo dos desejos - porque você me é desejo - fujo dos segredos - traço círculos tolos de imagens porque não as destruo, o ano vem e eu senti tanta coisa queimar, vi todas as bruxas queimando e gritando, pedindo que eu
as ajudasse mas eu não me movi, queimaram até que não sobrasse nenhuma cinza, vi a pele, os ossos, os cabelos rapidamente sumir. Sobraram cinzas do meu ano passado, e te procurei nelas desesperadamente. Às vezes encontrava coisas que me ligaram a você, flores roxas pequenas da grama, brancas, mas olhei todas e nenhuma tinha sentido, estavam ali para representar que você também se fora, também queimara as suas florestas e com elas eu tinha me feito em chamas descoloridas, sua floresta invadida de bronze derretido que me irrita, toda vez que leio a palavra bronze me lembro da igreja na frente da biblioteca nacional onde havia uma cúpula verde, mas era de cobre e não de bronze, lembro dos olhos de uma menina por aí, posse, posse, posso, posse, hoje vi um círculo de madeira no chão e um reino, os garotos da cênicas
inventavam um novo teatro com gigantes, reis, uma princesa vestida num manto vermelho no alto de uma cadeira. O príncipe desejava casar com a mulher de vermelho, mas seus pais ordenaram que ele deveria matar um gigante. Depois de afugentado o maldito ser, o príncipe volta e é enxotado pela corte. Um velho de amarelo e com um galho gigantesco na mão, alto, galho como três vezes o velho, invoca as forças da terra. Fui-me embora aí, havia formulários e textos para serem feitos, coisas
do dia, comer, também preciso comer. E te odiar, invejar, oh deus, como tenho todos os sentimentos medonhos e nenhuma vergonha de dizê-los a você.
Psicanálise, fogo, vento, terra, todos ouçam o chamado. Palavras desenhadas no vento. Todos ouçam o chamado e invoquem todos os corvos para cobrir o sol e, até que eu definhe na forma de um carvalho antigo, façam sofrer e queimar tudo o que há no mundo, eu mais forte hei de resistir até que a última gota d'água evapore nervosa no chão árido, está vendo?, é a força que tenho de fazer para ficar longe de
ti. Todos os corvos, ouçam meu chamado. Todos os corvos, ouçam meu chamado. De insânia e sono, de vinho e sexo, todos os corvos, se banhem na gordura e na areia da praia suja de esperma e insultos, ouçam meu chamado porque até eu mesmo não ouço mais minha voz. E luz, e lábios, de branco, resiste contra meus enxames de pragas, desfaz tudo com uma foice: seu amor eterno pelo mundo e eu amo uma fechadura que não abria ontem, dei um beijo nela e ela abriu para o espanto dele, camilo, ao lado olhando. Algo acontecerá, corvos ouçam meu chamado porque não tenho mais voz e meu corpo se consumiu um chamas de vergonha, cansaço e bruxaria, queimei-me numa pira e agora te procuro nas cinzas de mim.
seduzido às 22:19 ou
11.12.04
o vento realmente me faz mal, pensou Fátima e fechou as janelas. Lá dentro a mesa, a cama, o armário meio fechado de madeira barata, tudo era iluminado pela luz de leite do dia nublado, o vento levanta uns papéis na mesa e bagunça tudo, ela pensa, maldição, por um instante ela não sabia mas sobre sua cabeça e cabelos ruivos caídos havia um halo fino Botticelli, enquanto fechava a janela furiosa era uma santa em cólera, trinc, o trinco, e respirar aliviada. Sentiu o quarto, procurando no menor movimento um sinal de ar tenebroso, o arco da porta de pedra, as paredes de pedra, ela sabia que era uma prisão mas pior que tudo era o vento. Fátima: um brinco de princesa no meio do pântano, o vento não sabia que quem derruba um brinco de princesa tem azar por sete anos, deus!, e quantos o vento tinha derrubado? Eram roxos e vermelhos, Fátima se inclina para escrever alguma coisa e lá fora ouve-se o vento, tóxico, como um sangue triste e fraco que ronda a torre, ela devagar segurou na própria mão. Lá fora, lá fora, ele não vai mais me tocar. Verificou o trinco na porta, trancada. Respirou. Gustavo não faria mais mal a ela, nunca mais, trancada na torre, com as mãos entre as coxas, agradeceu ao senhor, pediu talvez que ficasse surda para não ouvir nem o vento lá fora e escrevesse. Marcas de unhas nas costas apareceram rapidamente quado se inclinou para sentar na cama e ela escondeu rapidamente temendo que o espelho na parede visse as marcas e a lembrasse: marcas, marcas. A cama tinha um colchão fino, não havia grandes luxos, mas no teto alguém desenhara com um carvão fraco as constelações e ela, míope, enchergava todas misturadas em algo que poderia ser Órion ou Medusa, ou Perséfone, ela queria que Perséfone estivesse no céu então sobre sua figura na cama ela desenhou com os pontos das estrelas a forma de perséfone, o problema era que onde deveria haver a mão havia algo como um lírio e ela odiava essa intervenção.
o trinco da porta mexeu às três e cinqüenta e um da madrugada, três mais cinco mais zero, oito, oito, oito infinito. Acho que ela sabia que não acabaria nunca. A porta abriu devagar, ele se escondia de quem para vir de madrugada e abrir a porta da torre assim tão devagar?, era um insulto, como quem rouba maçãs por prazer e joga todas num armário onde apodrecem marrons e silenciosas. O vento entrou, as folhas na mesa gritaram se jogando de cima de tudo e caindo no chão com um farfalhar agonizante, a porta do armário batia seguidamente, ritmicamente, a cama presa na parede e as estrelas no céu todas se moveram, sombras de dedos e de ombros grandes corriam pelo quarto como se sem corpo, Fátima pediu em um último apelo: deus, dai-me um lírio, por favor, dai-me um lírio. Com a mão caída para fora da cama, a porta se fechou devagar, as folhas no chão acalmaram-se meio mortas, a porta do armário aberta deixava se ver um vestido de noiva branco encardido bordado com pérolas que caíram no chão, a costura rasgada bem onde estava seu ventre.
seduzido às 10:01 ou
10.12.04
sessão orkut
Daniel Maiochi
obrigado pelos parabéns! : )
sem dúvida, olha, o ano novo mal começou e há tanta coisa nova, acho que estou explodindo por dentro mas é silencioso como a neve que cai, então imagine uma explosão lenta de luz.
Obrigado! : )
Tiago Elídio
te abracei uma vez, duas vezes, te vi à noite, você me convidou mas eu não pude ir, era mais forte que eu, sentiu já que você queria uma toca? Eu queria. Fui me esconder, onde meus pés podiam ficar calmos, lá no João Ricardo: joguei computador, ele me comprou coca-cola e biscoitos. Sente?, é o que eu precisava.
Beijão!
Sr. Patapovas,
as últimas lembranças que tenho de você são bonecas em caixas de plástico brilhantes, ácidas, mortais, olhos de plástico azul e cabelos de desejos de criança. Não vê?, me cubro de imagens porque tentei falar contigo e você ainda não em respondeu: o quanto incomoda, o quanto dói, o que destrói ter um piercing no lábio? E uma pintura no teto? Desejo uma capela cinza num céu amarelo que minha mãe desenhou há tanto tempo, sente a saudade nas palavras?, acho que não, é isso que me dói no escrever, você não pode passar o dedo sobre as minhas pinceladas e pausas e sentir a saudade que tenho daquilo. Veja, te escrevendo, penso em minha mãe, penso em você, tenho desejos e sente?, acho que parece vontade de chorar mas porque algo foi anunciado. Entre o que veio com a flor branca foi a vontade de capela cinza no céu amarelo de falar contigo; meio-dia no meu jardim que agora terá pequenas rosas rosas e manjericão.
seduzido às 20:25 ou
8.12.04
19
seduzido às 14:56 ou
3.12.04
círculo
um corpete, um vestido de veludo vermelho com cheiro do desodorante que minha mãe passava quando à noite ela saia, eu dormia no sofá esperando e as estrelas brilhavam todas lá em cima acima do telhado, atrás das nuvens, o barro sobre a cabeça com cabelo sem corte que dormia na frente da televisão e ouvia o ranger das portas; era porque demônios rodavam ao redor do giz traçado fracamente ao redor do meu mundo pelas avós, pelas avós rezando, não se perca, ouviu João?, e rezavam terços enquanto o bambu lá fora torcia, mulheres com vestidos vermelhos riam alto em algum lugar que eu teria esquecido se não fosse o perfume, se não fosse o apito tão forte, meu sangue em um fogo que parece o que é um álcool, cobri tudo de umas fitas que eu vi lançadas no vento, tanto vento, uma bandeira de branco sujo, pés descalços acho que procuravam alguma resposta da terra vermelha, o vício assoprava o explosivo mas o fogo apagado [ele não sabia, mas era assim mesmo: o vício é obsceno, ele é para ser lembrado como feito e não visto, se o vício explodisse sua labareda de chamas, talvez, de repente, desaparecesse e chovesse como chuva ácida que corrói a memória] e eu com uma bala doce, doce, doce, rosa e doce porque eu odeio tão fortemente o rosa?, mastiguei a bala com medo, medo de que me tocassem e eu tivesse que invariavelmente me mexer quando os tambores batessem - porque eu já me sentia um pouco torto, como se eu pudesse levantar a qualquer momento, perder as mãos nos olhos assustados dos outros e rodar, cair, algo no chão pulsa como um coração vivo, e agora eu sei sobre o que elas estavam rindo, sobre o que o mar se levanta e se deita, sobre o que os demônios estupram, meu medo invariável de homens sem camisa e do olhar enlouquecido dos que podem girar, girar sem cair, me seguro forte na cadeira porque sinto que eu posso respirar e de repente algo em mim estourará para sempre, um sol desenhado num canto em giz, sonhei há muito tempo com uma menina que se protegia dos outros dançando num círculo de giz na floresta e dormia lá à luz de uma única vela, quando o sol se pôs eu descobri que a minha tinha apagado e que eu estava desprotegido do lado de fora de dois círculos com demônios, sereias, minha mãe alta no banheiro se despedindo de mim e pedindo que eu me cuidasse, os olhos gordos e cansados de minha avó pedindo que eu comesse, a grama viva de bichos coloridos como pedras de um colar despedaçado numa escada, a lama nos meus cabelos imundos, mulheres de branco, homens de branco, um perfume barato que vi em um spray vermelho e, num surdo grito, tudo se foi, acho que foi o vento nos vestidos, o vento nos cabelos, o vento das mariposas à noite, aquele secreto que levanta tudo e parece um sopro na nuca antes de dormir, eles se foram embora numa curva, não sei se foram eles ou minha memória mas ouvi de longe tambores que anunciavam a vinda da chuva de leite sobre um círculo esfriando à noite.
[círculo,
sobre a apresentação da companhia caos no gramado da reitoria
eu lembro da tarde roxo suave como um lilás e esse texto para vocês]
seduzido às 10:36 ou
29.11.04
ah, vou morrer hoje não
ah não, agora que um amigo meu me gravou Stabat Mater eu não vou morrer de jeito nenhum. Não até eu cansar, pelo menos. : )
Pensarei nesse caso amanhã.
seduzido às 20:08 ou
é como se esse fosse o último texto
eu escrevi e guardei em uma gaveta qualquer, achei que teriam uma imagem muito triste de mim. Então vou terminar tudo assim de repente: acabou a luz no teatro. Já usei essa imagem, né? Então imaginem que o teatro pegou fogo. Vou para casa, porque se eu não morrer tenho um trabalho enorme para o dia 17.
seduzido às 19:51 ou
26.11.04
Sessão sonhos bizarros, parte três
sonhei que minha mãe era ela aí, e brigava com meu pai com uma Hatori Hanzo. Lembro de minha avó, acho, me jogando no telhado, eu atrás da minha mãe enquanto ela lutava com meu pai e, de vez em quando, eu, o narrador, entrava nos olhos da minha mãe e lutava com meu pai, eu sentia o ódio em mim!
gente, esses sonhos estão dizendo alguma coisa. É a segunda vez que sonho com minha mãe: o outro tinha sido assim. Começa numa biblioteca escondida da Ditadura, os guardas andando por entre as pessoas e as prateleiras, ninguém podia ler os livros. Eu e minha mãe estávamos roubando alguns e, para poder sair de lá sem ninguém ver que estávamos levando livros, ela tinha um anel que a tranformava em mosca e ela podia sair com os livros, mas eu me ofereci para sair e levei os livros embora. Os guardas nos perseguiram, não lembro por que, mas sei que uma hora, quando eue minha mãe nos dividimos, que eles estavam perseguindo a Czarina, a minha monitora do Coral, a que coordena a aula de técnica vocal, a Rux. Então eu e minha mãe tentamos proteger a Rux.
Na outra parte do sonho, enquanto eu e minha mãe estávamos num carro indo embora da cidade, passamos na frente do shopping onde a biblioteca ficava escondida e vimos um anúncio de um best-seller que minha mãe queria. Eu queria alguma coisa no shopping, então ofereci para minha mãe que eu iria lá roubar. Me transformei em mosca e fui voando, passeando pelo shopping, quando deu um vento e eu entrei pela janela na Zara, onde tinha um atendente lindo e uma camiseta azul cintilante e umas sandálias brancas que eu queria roubar (as coisas diminuiam quando eu roubava, ficavam do tamaninho da mosca)... mas o atendente me viu, começou a me perseguir... foi quando, no terceiro banheiro de azulejos brancos e velhos, iluminados pelo modelo de janela no alto, de pé direito baixo e com banheiras, ligados entre si, que, quando o atendente entrou, me transformei em um tigre e o forcei a transar comigo, depois de tê-lo amedrontado, eu já estava em forma de homem. Ele era loiro, olhos azuis, cabelo raspado e fortinho. Acordei.
seduzido às 21:00 ou
25.11.04
sei lá
Não sei, mas não me acostumo a esses anos "dois mil e ...", como "2005". Não acostumo. Parece que em 2000 alguma coisa aconteceu comigo, acho que todos nós morremos de repente e não percebemos.
Ontem descobri: o mundo não nos fala mais nada porque Deus não está mais no mundo. Temos de ficar falando, falando sobre o mundo para compensar o vazio que ele deixou, e, para mascarar sua ausência, usamos as palavras que ele assoprou quando Moisés desceu do monte. Pedaços dele, como se tivesse chovido pela Terra e agora nós andamos com seus pedaços que, na verdade, só representam que ele não está mais lá.
seduzido às 14:44 ou
24.11.04
um sonho
eu tive um sonho estranhíssimo há dois dias..
Um anjo apareceu para mim e me nomeou governador de uma cidade que estava nascendo. Era numa clareira no meio do mato, e eu andava sempre um pouco longe do chão, como se voando. Mas o anjo decretou algumas regras (mas só lembro de uma...): nenhuma madeira pode tocar o chão. Então eu voava pela cidade para impedir que as pessoas, que estavam começando a sair do estágio paleolítico (mas todas bem-vestidas, claro) deixassem que pedaços de madeira caíssem no chão. Mas nem todos os pedaços eu podia evitar que caíssem:
quando um caía, um carro descontrolado aparecia do além num canto da imagem do sonho e corria louco pelo centro da cidade (que não passava de uma cabana e uma trilha de terra batida) tentando atropelar as pessoas que circulavam.
Eu dizia para que não jogassem as lascas no chão, que não deixassem cair, mas não podia explicar para eles que quem me dissera isso fora o anjo, simplesmente não me passou pela cabeça fazê-lo: e eu passei o sonho tentando evitar que a madeira tocasse o chão, os pés das mesas, as árvores que caem.
seduzido às 21:31 ou
22.11.04
umas descobertas
gente, como descubro coisas:
toda gente, linda, feia, os gostosos, as prostitutas, as crianças, as velhinhas, aqueles que babam, os que são babados, os desejados, os indesejados: todos precisam de carinho, um carinho infinito porque há uma fenda em alguns lugares. Há uma fenda em mim? Há, como há em todos: uma fenda que se preenche de carinho.
Estranho, né, eu usar essa palavra, carinho, mas é ela mesma: talvez, amor, mas essa palavra já é socialmente carregada de medos... carinho, não. É mais leve, percebe?
Boa semana para todo mundo aí, me segurem para eu não cair.
João
seduzido às 20:42 ou
18.11.04
personagem
meu professor deu uma aula maravilhosa em A Hora da Estrela e o tema O Outro.
E, vendo o Outro, imaginei: será que tudo que sei de mim sei na verdade de um personagem que acho que sou eu, então nada sei de mim, mas tudo do outro, o outro João, o personagem de um conto que nunca escrevi?
seduzido às 22:28 ou
12.11.04
uma descoberta
descobri que há, dentro de mim, um conflito gigantesco entre o que eu sou e o que eu gostaria ou deveria ser. Um conflito entre o que eu desejo e o que eu quero desejar.
O desejo é interno, é aquele que eu estou tentando ouvir durante esse tempo que andei pensando em mim, é o que me deixaria completo (não necessariamente feliz..). O desejo que ando tendo é de outra instância, um desejo racional, compreende? Eu desejo racionalmente um relacionamento estável porque internamente eu sou inseguro. Ou o contrário: eu sou internamente seguro e me penso racionalmente inseguro. Ou o relacionamento está longe de tudo isso, não está ligado com a estrutura interna, talvez esteja ligado com outras coisas que não desconfio: aposto que simples e que cabem em uma frase.
Adoro as frases que contém as verdades da minha vida, frases mínimas. Percebe-se, eu sei. : )
Talvez eu construa frases absolutas para compensar um vazio absoluto que tenho; ou talvez me imagino vazio para que frases absolutas surjam, ou me imagino vazio para que haja auto-piedade. Meu vazio se assemelha ao sono...
talvez eu coloque o sono para destruir uma construção preciosa de mim mesmo, banalizar, para que eu possa esquecer, e construir tantas outras pensando ter me encontrado quando, na verdade, eu já me conheço há muito tempo.
seduzido às 23:06 ou
10.11.04
too far
hoje vi uma linda apresentação de dança
tudo o que quero fazer hoje é cantar a música mais linda da apresentação.
e dormir feliz.